:: PATRIMÔNIO E INTERNET ::
PATRIMÔNIO
O passado na internet
Documentos dos séculos 19 e 20 são publicados na rede mundial de computadores e transmitem às novas gerações informações sobre a história e a cultura de Itabirito
Gustavo Werneck
JAIR AMARAL/EM/D.A PRESS
A pesquisadora Gilmara Eduarda é uma das responsáveis pelo projeto, que também traz informações sobre a genealogia das famílias

Itabirito – Vida longa para centenas de fotografias e documentos manuscritos e impressos que guardam parte da memória de Itabirito, na Região Central de Minas, a 55 quilômetros de Belo Horizonte. Cartas de alforria, escrituras, livros de cartórios e flagrantes do cotidiano, entre outros registros dos séculos 19 e 20, já estão disponíveis num site, fruto da parceria entre prefeitura local, Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Fundo Estadual de Cultura (FEC), vinculada à Secretaria de Estado de Cultura, e Sociedade de Amigos e Beneméritos de Itabirito (Sabi).

“Encontramos papéis históricos de interesse de pesquisadores, de estudantes e do público em geral nos cartórios, paróquias e com moradores dos distritos e da cidade, que já pertenceu a Ouro Preto e integra o circuito da Estrada Real. O objetivo foi reuni-los para fazer a digitalização do acervo, antes de devolvê-los aos seus reais guardiões ”, diz a chefe da Divisão Municipal de Memória e Patrimônio, Gilmara Eduarda Braga. O projeto Itabirito –Nomes e lugares em rede começou no segundo semestre de 2005, sob a coordenação da professora Míriam Bahia, da UFMG.

No acervo disponível no endereço eletrônico www.arq.ufmg.br/nehcit/itabirito se encontram ainda atas de eleições, registros de terras, testamentos, fianças e outros. Gilmara explica que a página permite não só a pesquisa por documentos escritos e iconográficos, como a consulta à árvore genealógica das famílias de Itabirito. “O site dá acesso à história do sobrenome das famílias”, informa a chefe da divisão. Para facilitar a vida dos internautas, foram criadas ferramentas que mostram a evolução urbana do município e permitem cruzamento de informações via gráficos e mapas.

Na Divisão de Memória e Patrimônio, ainda podem ser vistas várias caixas contendo livros de atas, registros de igrejas, volumes de cartórios de registro civil e outros documentos amarelados pelo tempo e manuseio. Num quadro na parede está a cópia de uma carta de alforria de 1850. Em seguida, Gilmara liga o computador e, com um simples clique no mouse, mostra o material digitalizado, que agora está acessível ao mundo. Em breve, o conteúdo vai ganhar o formato de livro-CD, com distribuição gratuita, em todo o estado, para instituições culturais.

Quem gosta de imagens não tem do que se queixar, pois estão armazenadas 440 fotografias, do fim do século 19 e início do 20, mostrando festas de carnaval, promoções da prefeitura, cenas familiares e outros eventos. “Fizemos uma campanha, na cidade, para que as pessoas emprestassem os arquivos pessoais e deu muito certo”, conta Gilmara, que desenvolve um trabalho de educação patrimonial para levar a história da cidade aos estudantes.

PORTAL DE CULTURA Outra novidade na rede é o site www.itabiritocultural.com.br, o primeiro portal voltado exclusivamente para a divulgação dos artistas da cidade, notícias e agenda cultural. Patrocinado pela lei municipal de incentivo à cultura, ele divulga as principais manifestações artísticas e culturais do município nos campos das artes cênicas, música, literatura, folclore, artesanato, audiovisual, realizadas por pessoas físicas ou jurídicas. Com um pequeno currículo, o artista também tem o seu trabalho divulgado por meio de fotos e músicas. “O projeto é pioneiro na região. É a primeira vez que os artistas locais terão um suporte eletrônico para dar visibilidade a seus projetos e trabalhos”, diz o criador do site, o cantor, jornalista e gestor cultural Thelmo Lins, destacando que a intenção é ampliar o mercado de trabalho e reforçar o profissionalismo.

 

PLEBISCITO PARA RESTAURAR AFRESCO

Os moradores de Itabirito vão às urnas para decidir sobre um detalhe precioso do seu acervo barroco. O titular da paróquia de Nossa Senhora da Boa Viagem, padre Miguel Ângelo Fiorillo, vai fazer um plebiscito para concluir a restauração do templo construído entre 1710 e 1720 e em obras de conservação há 25 anos. “A população vai resolver se vamos manter, no forro da nave central, a pintura da Assunção de Nossa Senhora, de 1911, ou se faremos a remoção das camadas de tinta para trazer de volta a original, a coroação de Nossa Senhora do Céu, datada do início do século 18”, afirma.

O padre tomou a decisão depois que a equipe de restauro fez trabalhos de prospecção no forro e verificou que havia outro afresco sob o mais recente, de autoria do pintor Rubens Ribeiro, de quem não se tem muita referência. “Já comuniquei sobre a consulta popular ao conselho municipal, pois o templo é tombado pela prefeitura , e ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os fiéis me deram autonomia para resolver o assunto, mas prefiro cumprir o veredito da comunidade”, explica o religioso. O medalhão é circundado pelas figuras dos evangelistas (Mateus, Lucas, Marcos e João) e dos doutores da Igreja (São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho e São Gregório Magno), todos já recuperados.

A restauração foi dividida em três etapas. Em 1984, foram contemplados a estrutura do piso, o reboco e as guilhotinas das janelas; em 1996 e 1997, a cobertura; e de 2004 a 2009, os elementos artísticos e a rede elétrica, período em que a igreja ficou fechada até a reabertura, na semana passada, com muita festa e comemoração. “Fizemos todos os serviços a custo muito baixo. Na última etapa, gastamos cerca de R$ 350 mil, sendo R$ 220 mil da empresa Vale, via lei de incentivo federal à cultura, e o restante recolhido em barraquinhas e outras promoções na cidade. Essa obra serve para derrubar o mito de que são necessários milhões para deixar as igrejas em bom estado”, acredita padre Miguel Ângelo, lembrando que conseguiu manter, no trabalho, durante cinco anos, quatro técnicos da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop).

Entre os principais pontos de restauro estão o altar-mor, feito com talhas paulistas, da primeira fase do barroco mineiro, e mais outros três; dois púlpitos com douramento; e as torres ornamentadas com pedras, complementadas por pináculos, que remetem a castelos medievais. Segundo o padre, trata-se de uma das únicas igrejas de Minas que, no presbistério (altar-mor), mostra a oração da Ave Maria com representação em nove grandes quadros.

No fim de março, os moradores de Itabirito celebraram, com festa os 300 anos e a reabertura da igreja, considerada uma das 10 mais antigas de Minas. Segundo o padre, a construção tem particularidades que a tornam especial e motivo obrigatório de visitação. Um deles está no coro, que teria servido de modelo para Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), esculpir os coros de igrejas de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e de Ouro Preto, na Região Central. (GW)



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